segunda-feira, 15 de março de 2010

Des - Museificar a vida!




Renato Mezan, em seu livro Freud, o pensador da cultura (1986), lapida o sentido do museu em nossa sociedade, quando explica o contexto sócio-político-cultural da Viena à época de Sigmund Freud e da sua invenção da Psicanálise. Acreditando que a época funciona como motor cartográfico inerente à formação do homem e de seu pensamento, Mezan explica como Viena transformara-se em um museu a céu aberto (sociedade refinada mas de grande superficialidade nos comportamentos humanos e arredia em relação às inovações científicas, tecnológicas e artísticas); situação contraditória, pois toda o restante da Europa sacudia-se aos sabores das tempestades inovadoras do final do séc. XIX e começo do Séc. XX.


Quando falo da situação de museificação, estou falando do museu-sarcófago, mumificador de qualquer objeto/instação/manifestação artísticos. Daquele museu que juntou centenas, milhares de obras de todo tipo e estilo artísticos e que os governos tratam, apesar do descaso econômico, como a jóia da coroa da memória da nação.

O paradoxo é que um arquivo que registra o processo evolutivo da vida de um povo esquece/interrompe o fluxo dessa vida arquivada que reflete e deveria ser a extensão direta da vida fora de suas paredes. Os dado/objeto/contexto museificados são retirado da circulação da usinagem semântica que brota das relações entre os homens ainda vivos e aqueles que ainda virão.

Grades, correntes, cordões de isolamente, ausência de janelas, luz artificial, guardas e guardas, sensores, modernos sistemas de seguranças formam a maquinária para isolar completamente o arquivo do museu das pessoas que estão constantemente criando realidades.

Esse sentimento de museificação, em ótica filosófica, relaciona-se com as condições do mesmo e do diferente: ou seja, o mesmo é o fenômeno aceito pelas regras de bom tom/utilidade/beleza de uma sociedade, enquanto o diferente é o fenômeno que não foi aceito por esse ideário ou então ainda não é compreendido o suficiente para fazer parte do rol de obras/instalações que já foram escrutinadas e aceitas como exemplares de valores oficiais da normalidade da cultura específica. Nesse sentido, a museificação clássica corta o fluxo do desejo; ou melhor, enquadra esse fluxo em caminhos rigorosamente cartografos em que a usinagem de sentidos é controlada e minimizada em sua capacidade produtiva.


Mezan discute o conceito para explicar a cidade de Viena, na época que antecede o nascimento, a conseqüente educação de Sigmund Freud, bem como a “invenção” da Psicanálise.

O fragmento de seu texto é saboroso:

“O museu, com sua disposição tranqüilizante, em que as obras coexistem umas ao lado das outras, protegidas do público pelas molduras e cordões de isolamento, pode ser igualmente visto como o lugar em que a arte é neutralizada, exatamente por meio da sua glorificação. A função do cordão de segurança pode ser interpretada como a de proteger, não a obra do vandalismo do espectador, mas este do poder de sedução e de inquietação contido na obra. Ao arrancá-la do contexto em que deveria produzir seu efeito inovador ao apresentá-la como exemplo de um etilo ou de um autor, o museu elimina este efeito e faz surgirem as obras como que flutuando no vazio, desprovidas mesmo da finalidade decorativa à qual se destinavam originalmente. Nesta perspectiva, é sugestivo lembrar que a visita aos museus de arte se faz geralmente acompanhada de um comentário, seja falado por um guia, seja escrito num texto; não é apenas a falta de familiaridade com o que está exposto naquelas salas que explica a necessidade do comentário, posto que esta própria falta de familiaridade precisa de explicada. Que se tenha tornado necessário ensinar a ver o que mostra um quadro ou uma estátua diz muito sobre esta função de neutralização da arte, já que a melhor forma de se escudar do sentido de uma produção humana é ignorar a forma pela qual ele se materializa, num estilo determinado e num código expressivo particular. Aqui como em tantas outras ocasiões, a ignorância serve propósitos mais sutis e obedece a razões emanadas da resistência” (p. 28)

Pensei nesse contexto de museificação quando Margareth, Alexandre, Francisco e eu (professores universitários e tals!) montamos nossa exposição de fotografias, “Fragmentos”, na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Goiás. Fotogramos cidades, monumentos, pessoas de quatro núcleos temáticos: Paris, EUA, Itália e Brasil e desejávamos mostrar aos nossos alunos como eles podem criar objetos artísticos quando fogem dos roteiros de turismo convencionais que o contexto midiático nos impõe.

No meio da montagem (trabalho braçal ao lado da curadoria artística!), começamos a discutir sobre exposições (museus!) e a sua relação com o público. Comentei sobre a necessidade da interação com o público que é o único responsável pela vida ativa da obra de arte. Sugeri que o contato entre expertador e fotos fosse dinâmico, com alguma espécie de contato, de vínculo, de interação maior entre as fotos expostas e o observador/fruidor.

Um de meus colegas disse, no entanto, que a obra de arte deve ser protegida de interações desse tipo que acabam por criar condições para ataques e ações afins, e que o valor intríseco da obra de arte (ou similar) deve ser resguardado de qualquer forma.


Minha resposta ao assunto apontou para uma tendência que, aos poucos, vem se consolidando no mundo inteiro quanto aos museus e congêneres: A inevitável interação entre obra/instalação e expectador/fruidor. Inevitável porque é a única forma de trazer pessoas vivas para o museu, dinamizando-o, pois. Pessoas vivas que em minutos, horas, dias, semanas ou por toda as suas vidas entrarão e dinamizarão as cartografias museificadas, mesmo que isso possa causar danos às obras que, mais do que viver em si mesmas e para si mesmas, vivem para os vivos.

O museu fica vivo quando pessoas vivas agem, de alguma forma, sobre as obras/instalações. Essa ação pode ser de vários tipos, como o fatídico “tocar” as obras, fotografar, arrepiar-se diante delas, comprar uma cópia da obra no bazar do museu, mudá-la de posição (coisa quase impossível! rs), vandalizar a obra de arte (nada recomendável, mas muito interativo do ponto de vista narcísico), sentar ao lado, em baixo, em cima da obra/instalação, filmar, fazer um sarau ao lado de, fazer um piquinique ao lado de, deitar e dormir ao lado de, fazer aniversário, casamento, batizado ao lado de (imagem um casamento na frente da Mona Lisa?!).


No Brasil, museus como o da Língua Portuguesa, em Sumpaulo, estão dinamizando essa relação interativa. Usam mídia imagética em movimento constante, interfaces computatoriais, móbiles, corredores vivos, enfim, um contexto no qual o expetador/fruidor ativa também sua potência criativa e têm condições para insuflar vida no objeto/instação artístico que fora ali museificado. Tal cartografia rizomática (porque suas raízes não são definidas em um apriori , mas sim se dinamizam em várias direções e extratos socias, culturais, políticos e subjetivos difentes) atrai públicos de variadas ordens: crianças, adolescentes, adultos, velhos, negros, brancos, pretos, brancos, (índios parece que ainda não vão lá!), homens, mulheres, gays e afins. A heterogeneidade social ativa prestigia e aprova com muita ênfase essa modalidade de museificação. Museifica-se, mas há sangue correndo nas veias do reduto que objetiva controlar a polivalência semântica da obra.


Em contrapartida, um museu como o MASP (e semelhantes como o Louvre, a Tate Galery, o Moma e tantos outros), classudo e sério, esvazia o poder interativo e criativo do visitante. Concreto frio. Sistema de segurança arrogante (porque altamente visível), Guardas burocráticos e deselegantes, linha de segurança (para não se aproximar da obra) muito definida, luz muito artificial que nos tira a idéia do tempo da vida real do lado de fora.

Assim, existem pessoas (como eu, que mesmo rodando no interior da caixa de concreto sem vida por horas e horas!) que preferem sair do prédio para ficar no vão do MASP... o grande vão do MASP! palco de tanta vida, de tantas tribos, de tantos interesses, de tanta energia que deseja ardentemente invadir o museu-sepulcro.

Fico no vão do MASP, também por horas e horas... e sei que de vez em quando um menina de um quadro de Renoir desce de sua prisão na exposição permanente e vem flanar comigo pelas subjetividades das pessoas que também frequentam o vão do MASP e a Av. Paulista.

Bom seria aquele museu que tivesse um corredor ligando-o as nossas casas, as nossas escolas, aos nossos shoppings, as nossas igrejas, enfim, as nossas subjetividades em constante formação e fluxo.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Cartografias subjetivas na cibercultura: o caso da rede social do orkut




Circuitos comunicacionais (JAKOBSON:1971) estabelecem condições de comunicação e expressão de referenciais do universo ego-sócio-cultural por subjetividades emissoras/receptoras. Se a formalização rigorosa de esquemas comunicacionais normalmente não atentam para a subjetividade personalizadasdos usuários inseridos no processo, o pesquisador deve fazer o resgate do elemento humano que ainda é a razão de ser da existência desses sistemas. Nesse quadro, acompanharemos alguns aspectos da estruturalidade e da funcionalidade de um desses dispositivos comunicacionais, de esfera cibernética, que é a rede social do orkut.


Tal rede de comunicação social pode consolidar cartografias subjetivas em franco processo de homogeneização e alienação, quando oferece roteiros rígidos de ação do usuário. No entanto, dinâmicas de flexibilização e de deslocamentos processuais e existenciais criam estratégias que asseguram a produção e a manutenção de cartografias subjetivas criativas, produtivas e conhecedoras do espaço gerador dessas representações.



O DISPOSITIVO DA REDE SOCIAL


Charles Baudelaire encanta-nos, entre tantos sentidos e nuances de sua obra poética, quando nos apresenta sua peculiar estratégia de olhar a realidade a sua volta sob a dinâmica da flânerie. Seu olhar flana pela Paris já industrializada do século dezenove. Sob cheiros e fumaças das chaminés; ao largo das ruas tomadas por comércios e consumidores sedentos das últimas novidades fabris e tecnológicas; imerso na massa anônima de trabalhadores; sob os resquícios da aristocracia européia; e influenciado por segmentos vigorosos de burgueses endinheirados e sedentos de consumir bens materiais e imateriais, Baudelaire fala-nos sobre o exercício existencial de olhar o mundo a sua volta em regime de desligamento lúdico, em um primeiro momento, e esclarecido, em momento posterior.


Walter Benjamin (2000), pensando a cultura da modernidade, resgata-nos a modalidade de olhar baudelaireano que procura descobrir o que seriam as verdadeiras razões existenciais do ser humano em franca época de territorializações tecnológicas, com todas suas decorrências de desumanização. Esse contexto, de consolidação fabril e tecnológica, coloca as subjetividades em regime de estupor, de incompreensão, além de investi-las da condição de instância alienada de produção e de consumo em relação ao que acontece em seus foros íntimos, com os demais seres e com o aqui e agora em que irremediavelmente estão inseridas.


A Paris de Baudelaire e a Europa de Benjamin não tinham ainda o mundo cibernético que conhecemos hoje. Computadores e suas interfaces variadas existiam apenas em embriões de projetos teóricos. No entanto, já existiam as redes sociais que juntavam pessoas em pólos de interesses afins.


Contemporaneamente, estamos em densa era da vida humana estabelecida na e pela realidade cibernética. Nosso cotidiano virtualizou-se de modo factual, corroborando a mais arrojada ficção científica sobre o tema. O corpo humano ganhou novos membros, agora cibernéticos, que à moda dos apêndices, tornaram-se essenciais a uma vasta gama de atividades. Usamos editores de textos, lemos jornais e revistas, acessamos rádio e televisão, acompanhamos blogs, fotoblogs e afins, programamos nossa vida de acordo com variados softwares; enfim, realmente nossa vida está impregnada e, mesmo, está sendo cartografada pelo universo cibernético.


De dispositivo tecnológico de difícil acesso, o computador tornou-se instrumento de registro, acúmulo e distribuição de dados das mais heterogêneas naturezas, meio de criatividade para artistas e congêneres, e, de modo instigante, meio de comunicação e subjetivação pessoal.


Interessa-nos de perto esse tema da comunicação e subjetivação pessoal. Entre os variados programas para tais fins, escolhemos a rede social do orkut para refletirmos sobre suas estratégias midiáticas e as conseqüências que elas ocasionam na formação e no estabelecimento das subjetividades contemporâneas. Se por um lado esse campo cibernético de rede social cria condições para enriquecimento da vida humana, por outro, também mantém estratégias de adestramento e alienação das subjetividades que a ele estão expostas.


Vamos, pois, a essa rede social, na qual um grande número de usuários brasileiros estão imersos diuturnamente. Se de início nosso olhar foi de flânerie, com entradas e uso lúdicos do dispositivo cibernético que é o orkut, em seguida, nosso olhar procurou e procura meios objetivos para descrever, analisar a estruturalidade e funcionalidade dessa poderosa ferramenta encarregada da construção/manutenção de determinadas formações subjetivas.


Essa rede social, que é o orkut, dá seus primeiros passos no campo de uma vasta e complexa gama de instrumentos midiáticos. Mesmo sendo seus primeiros passos, parece que tais passos já indicam o gigantismo da rede e de sua influência junto a uma grande contingente de usuários. Tal dispositivo midiático foi criado pelo turco Orkut Büyükkokten em 2004, nos laboratórios do Google (daí o nome da tal rede!). Rapidamente disseminou-se pelo mundo inteiro, antes nos EUA e em países europeus, para em seguida ser adotada (ou seqüestrada?) com grande vigor por países como o Brasil e a Índia. Atualmente, o Brasil é o país com o maior número de usuários dessa rede, contabilizando mais de vinte e três milhões de usuários.


Seu objetivo oficial era o de oferecer condições virtuais para que seus usuários estabelecessem novas amizades, encontrassem pessoas com atividades afins e mantivessem os vínculos de amizades já existentes. Sabemos que tais funcionalidades foram muito ultrapassadas em seu intento inicial. Um rol de numerosas outras atividades pode ser percebido nas ações dos usuários de hoje. Porém, uma das mais importantes funções de tal rede é a de propiciar condições para que fluxos subjetivos adentrem no campo do ciberespaço, estabelecendo nesse espaço condições existências variadas.


A princípio refletimos sobre os ganhos que essa rede traz aos seus usuários: encurtar distâncias; redescobrir pessoas do passado; cultivar vínculos afetivos; destruir vínculos afetivos; conhecer novas pessoas; conhecer novos lugares e situações, através da leitura de recados seus e alheios; bem como conhecer lugares, objetos e referenciais desconhecidos através dos álbuns de fotografia; apreciar músicas e vídeos de participantes da rede; entre tantas outras modalidades de vínculo e produtividade de natureza afetiva e social.



CARTOGRAFIAS CONSERVADORAS


Como qualquer programa do mundo virtual, o orkut assemelha-se a uma plataforma com lugares accionais pré-estabelecidos. O usuário, ao inscrever-se, recebe espaços nos quais pode atuar. Alguns desses espaços, no início das atividades dessa rede, eram de uso obrigatório, como a identificação pessoal e o país, entre outros. Porém, com o decorrer do tempo, vários espaços propostos pelo programa deixaram de ser preenchidos pelos usuários. Apesar disso, a estrutura realmente é fixa nas propostas de se oferecer um quadro geral, social, profissional, e pessoal, além das formas de contato (endereço e telefone) entre os membros da rede.


Pragmaticamente, o usuário da rede possui campos identitários que podem ser predominantemente preenchidos por ele e, indiretamente, pelos outros membros de sua rede. Os campos mais significativos dizem respeito ao caderno de recados, à rede de amigos, aos álbuns de fotografia, aos vídeos e às comunidades. Tal modelo pretende dar conta de certa integralidade subjetiva, tratando-se, pois, da tentativa de efetivação de um ideal de representação da subjetividade que entra no jogo dessas específicas relações cibernéticas.


Esses espaços identitários fornecem rígidas diretrizes para a ação do usuário, pois ele não tem permissão para alterar os parâmetros da estruturalidade que é dada de modo apriorístico e assegurada por um código de regras de funcionamento. Muito menos o usuário tem condição de modificar os pontos centrais do que seria a funcionalidade esperada pelo programa. Um dos poucos momentos de liberdade accional do usuário é a sua opção de escolher as pessoas que irão participar de sua rede. Mesmo nesse tópico, o programa estrategicamente lhe oferece um número considerável de usuários com os quais supostamente o perfil específico poderia se relacionar.


Em seus primórdios, o orkut exigia que a entrada de novos usuários fosse feita mediante convite de quem já era membro. No entanto, posteriormente, permitiu-se que o próprio usuário registrasse-se e começasse a fazer sua própria rede, sob parâmetros já dados.


Vimos que os espaços construídos elaboram um roteiro pré-fixado de uso. Esses roteiros estão em franca mutação que, aparentemente, surgem das necessidades ações sugeridas pelos membros ou pelo misterioso escritório- central do orkut. Se no primeiro ano, as regras de uso apresentavam-se dacronianas, nos anos seguintes, novos mecanismos de ação foram sendo implementados. Em 2008, como se vê no histórico do programa, mais de vinte novos procedimentos foram desenvolvidos e aplicados.


Desses procedimentos, os mais notórios dizem respeito à consolidação da privacidade do material do usuário em relação à rede geral e a sua rede específica. Se antes os recados, ponto nevrálgico desse tipo de rede social, eram visíveis para toda a rede, atualmente há a opção de deixá-los visíveis apenas para rede específica; ou, então, apenas para algumas pessoas dessa rede específica. O mesmo ocorre com os álbuns de fotos, com os vídeos musicais e outros arquivos de dados responsáveis pelo exercício identitário via socialização.


Como apontamos antes, a estruturalidade do orkut cria espaços existenciais apriorísticos. Campos como dados gerais, sociais, profissionais, pessoal, entre outros de menor visibilidade, direcionam o usuário a localizar-se como subjetividade substancial e cêntrica. O conceito de personalidade usado é aquele da psicologia e da filosofia positivistas que asseguram ser o sujeito um conjunto fechado de características estabilizadas por um rigoroso princípio de conservação.


Dessa forma, um perfil de usuário no orkut deveria corresponder à imagem simétrica que deveríamos ter de nós mesmos ao nos olharmos em um límpido espelho. Teríamos, como nos ensina Jacques Lacan (2001) a ilusão de uma integralidade físico/subjetiva como aquela da criança que se sente singular diante de um espelho e, consequentemente, sentir-se-ia singular diante do mundo a sua volta. A sensação de integralidade e de individualidade criaria o sentimento de pertença egocêntrica, que separaria a dimensão interior do sujeito, o seu foro íntimo, daquela dimensão da exterioridade coisal representada pelos outros sujeitos e pelo mundo no qual a subjetividade egóica-especular estaria inserida.


O dispositivo cibernético do orkut é programado para encenar essa integralidade do sujeito da ação. Sua contrapartida são os outros variados mundos subjetivos com os quais se abrem os vínculos existenciais. Nessa relação, como já mencionamos, um dos básicos princípios reguladores de tais relações é o princípio da conservação. O usuário produz suas relações, preenche os campos permitidos com seus dados e mantém sua produtividade sob os parâmetros de equilibração e conservação.


Quando surgem mais mecanismos que consolidam o contexto de privacidade do perfil do usuário, adensa-se a sensação e o sentimento de estruturação verticalizada da subjetividade. O sujeito teria, então, encontrado seu verdadeiro eu, ao lado de pessoas com as quais simetricamente se identifica. Essa verticalização quantitativa e qualitativa acentuaria a ilusão da imagem especular da qual Lacan tratou.


A ilusão do ego centrado seria um dos resultados centrais dessa rede social específica e de outras redes sociais similares que pouco se diferenciam quanto à estruturalidade e funcionalidade. Quando abrimos um perfil de usuário do orkut, temos as linhas de força da construção de um campo egóico. Aparentemente todos os dados ali registrados convergem para a construção de um campo existencial que não permite margens para interpretações ambíguas. A subjetividade exposta estaria totalmente marcada por uma racionalidade, por afetos e instintos que deveriam ser previsíveis. Mesmo quando não conhecemos o dono do perfil pessoalmente, pelos seus dados pessoais, dados profissionais, fotos, músicas, comunidades e sua rede de amigos, teríamos dados suficientes para elaborarmos uma cartografia bastante previsível e confiável do ponto de vista relacional.


Nesse quadro, temos que o orkut é uma realidade cibernética que, em um primeiro momento de descrição e análise, não contribui para descolamentos existenciais verdadeiramente produtivos, já que sua roteirização apriorística impediria o usuários de abordar outros campos accionais de acordo com seus interesses mais verticalizados e menos padronizados. A padronização do roteiro de ação determinaria um empobrecimento do exercício de criatividade, de produtividade, de imaginação, enfim, de enriquecimento subjetivo, social e, naturalmente, político.


Ao lado da constatação fácil de que tal rede de relacionamentos articula e consolida cartografias subjetivas conservadoras, há ainda a constatação de que essa rede gera conseqüências imediatas no mundo cotidiano de seus usuários. Como qualquer outro circuito de comunicação, o orkut gera conseqüências mais do que virtuais, ele gera conseqüência bem palpáveis, tais como: encontros reais; agendamentos de compromissos; contratos de variadas ordens; compromissos os mais heterogêneos; agenciamentos heterogêneos do desejo. Ou seja, sua ação dinamiza a vida real. E talvez tal dinamismo venha a se tornar mais potente do que os registros de conteúdos e sentidos veiculados por toda uma mídia pré-redes virtuais.


Disso surge a necessidade de compreendermos a estrutura e funcionalidade desse mecanismo que, ao contrário do exercício de olhar poetizado por Baudelaire, acaba por ancorar as subjetividades em situações que ela desconhece, pois que se encontra alienada pelo processo em que se insere.



CARTOGRAFIAS EMANCIPADORAS E LIBERTÁRIAS


Do conceito de subjetividade cêntrica e substancial, contestado por Lacan e por tantos outros pensadores movidos por uma epistemologia da subjetividade em constante fluxo, somos levados para a dimensão do sujeito caracterizado por seu devir, conceito este que surge na esteira dos estudos de Gilles Deleuze (1995, 1996, 1997). A subjetividade do devir seria aquela instância em constante movimento de interpenetração com os seres (de qualquer natureza e ordem) que estão em seu campo de contato direto ou indireto.


Pessoas identificam-se com pessoas, sob o clássico enfoque ontológico. Na contemporaneidade, sabemos que pessoas também se identificam com animais, com vegetais, com seres do reino mineral, com produtos e programas criados pelas variadas tecnologias. E se, em um primeiro instante, podemos acompanhar o usuário do orkut sendo direcionado, pelo agenciamento de enunciação (GUATTARI, 2001) que é o roteiro pré-fixado de ações, em momento posterior, acompanhamos essas identificações assumindo também a natureza de devir heterogêneo, inclusive o devir maquínico.


Sabemos que Animais já têm seus perfis no orkut. Donos amorosos, e similares, dão um lugar de destaque aos seus cães, gatos, aves, plantas, frutas entre outros seres e coisas, que passam a ser titulares de perfis, de comunidades, de fotos e vídeos. Ou seja, a subjetividade antropocêntrica desloca-se em devires animais e maquínicos, apesar dos rigores antropológicos em se valorizar a condição humana como grandeza existencial que deveria ocupar o topo da hierarquia.


Subjetividades em devires podem funcionar como estratégias para burlar territórios existenciais fechados pela estruturalidade e funcionalide dessas redes sociais. Se a idéia de egoicidade íntegra e individual, apesar dos vínculos estabelecidos pela rede, é o motor do sistema, possibilidades de identificação com variados seres e dispositivos minimizam o preenchimento das máscaras comportamentais previsíveis.


Desse modo, o princípio de conservação é colocado em plano inferior. Outro princípio, o da alteridade identitária do constante movimento intersubjetivo, marca as ações do usuário que pode deslocar-se do campo de sujeito apassivado e alienado para o papel de sujeito mais ativo e essencial móvel de ações que preencherão espaços de acordo com intentos não exclusivamente padronizados.


Pragmaticamente, nossas sociedades de controle não apreciam tais liberdades de ação e posicionamento. Sabemos que departamentos pessoais de variadas empresas, e órgãos afins, já entrevistam candidatos a vagas de trabalho, tendo o orkut do candidato nas mãos. Normalmente, tais empresas, e correlatos, são dirigidas por noções de personalidades cêntricas, previsíveis e equilibradas do ponto de vista subjetivo e social. Assim, linhas de representação tradicionais e conservadoras dão os pontos positivos que criarão as condições para que o currículo cibernético da pessoa seja aceito ou recusado.


Como se estruturaria um currículo cibernético, como o perfil de um usuário do orkut ou de redes similares, recusado por instituições que conservam a tradição de uma sociedade? Muito provavelmente os dados recusados seriam aqueles que apresentam explicitamente elementos que atentam contra a moral e os bons costumes. Registros de ordem sexual, econômica, étnica, religiosa, entre outras, quando não contemplam os valores estabelecidos pelo senso comum, estão entre os grandes complicadores de um retrato pessoal estruturado e veiculado pela rede social.


Além dos materiais explicitamente recusados, teríamos aqueles materiais de recusa mais implícita, tais como aqueles constituídos por uma heterogeneidade semântica presentes nos registros. Recados, no caderno de recados, de natureza variável e com conotação moral variada, causam mal-estar. Fotos de referentes exóticos ou não-aceitos causam mal-estar. Comunidades com dados perturbadores causam mal-estar. E assim por diante. Esse mal-estar surge da estranheza frente ao imprevisível e, por vezes, à radicalidade do outro que pode ser bem diferente da constituição dos valores padronizados de nossa sociedade. E não estamos aqui a falar sobre registros de fatos e situações de notória infração, tais como pedofilia, sexo explícito, racismo, preconceito religioso, entre tantas outros de cunho recorrente em tais redes. Estamos a pensar em registros de dados que não possibilitam formamos um perfil centrado e previsível do usuário.


Se, por exemplo, temos, em uma lista de comunidades, a expressão de amor por um time de futebol, achamos contraditório que também aí haja a expressão de amor por um time rival. Se temos a expressão de um valor determinado, logicamente a expressão de um valor antagônico já nos causaria a desagradável sensação de estranhamento, oriundo o pensamento dualista que norteiam nossas noções de valores, que funciona como um poderoso parâmetro de avaliação moral do usuário.


Esse estranhamento, no entanto, é o sintoma de que a subjetividade estaria deslocando-se rizomaticamente (DELEUZE: 1995) pelos desvãos do dispositivo cibernético que a tenta controlar com todas as suas estratégias de padronização.


A subjetividade rizomática espraia-se por possibilidades de ação que o sistema não consegue controlar ainda. Dessas possibilidades, temos produções subjetivas capazes de descobrir e usar condições pragmáticas de enriquecimento existencial, sem ficarem presas à previsibilidade dogmática de uma cartografia existencial mantida pelo princípio de conservação.


Não entramos aqui, temos que ressaltar, no campo de atividades completamente anti-sociais que vários agenciamos de enunciação de sentidos e de realidades são capazes de fazer. Subjetividades não estão acima do bem e do mal para darem curso livre a sua complexa energia de vida. Prendem-se, sim, a diretrizes da vida coletiva que, sabemos, não têm a obrigação de ser tão limitadas quanto às possibilidades de ação do sujeito.


Nesse contexto de possíveis desterritorializações, algumas práticas podem enriquecer o uso do dispositivo cibernético que é a rede social. Os devires animais, coisais e maquínicos criam um campo aberto a novas experiências, sensações e sentidos. O uso artístico dos campos pré-fixados desmobiliza a assepsia imposta pela comunicação pragmática. A variabilidade de interesses, demonstrada pelas comunidades adotadas pelos usuários, emolduram desejos de deslocamentos que podem estabelecer produtividades de outras ordens, mesmo ordens fora do circuito capitalista de existência. A heterogeneidade do gosto musical, expressa na coleção de vídeos, cria a saudável iconoclastia do usuário frente a inumeráveis universos de produção que sua sociedade pode lhe oferecer.


Vários perfis das redes sociais são verdadeiros ateliês de produções artísticas já concluídas ou in progress. Outros perfis funcionam como espaços nos quais uma grande gama de temas são discutidos de modo sério, criativo e cooperativo. Ou seja, um mecanismo criado para massificar comportamentos, em vários contextos pode ser desconstruído e reconstruído sob condições que possibilitam e incentivam a constituição de subjetividades em rico devires.


O orkut, tal qual um ser vivo, está em constante evolução. De sua natureza de agenciamento coletivo de enunciação alienadora de subjetividades em série, pode deslocar-se em instrumento de comunicação em que a liberdade de escolha e de ação possa talvez ser a dinâmica recorrente.


Atualmente, essa capacidade libertária parece enfraquecer-se diante dos variados mecanismos cautelares que o sistema implementa. Chaves de segurança são criadas, como já mencionamos, para trancar cadernos de recados, álbuns de fotografias, vídeos, depoimentos e outros espaços de registro identitário. Uma forte tendência de privatização do arquivo de dados configura o atual usuário. Torna-se raro vermos perfis francamente abertos, nos quais os usuários colocam suas constituições pessoais nessa grande “ágora” cibernética. As sub-redes estão se fechando cada vez mais e a espontaneidade coletiva é obrigada a dar lugar a estratégias cautelares que são predominantemente de ordem moral e pragmática.



CONCLUSÃO


Voltamos ao olhar de flânerie, exercitado por Baudelaire, e sistematizado por Benjamin frente à massificação da vida feita pelas cartografias sócio-político-culturais da modernidade. W. Benjamin, conta-nos sobre esse olhar desligado dos excessivos pragmatismos, quando anda por uma grande cidade européia:


Um bairro extremamente confuso, uma rede de ruas, que anos a fio eu evitara, tornou-se para mim, de um só lance, abarcável numa visão de conjunto, quando um dia uma pessoa amada se mudou para lá. Era como se em sua janela um projetor estivesse instalado e decompusesse a região com feixes de luz.

(2001, p.75).


Nossas cidades contemporâneas também estão recriadas na rede social do orkut e em outras redes sociais. Esse espaço cibernético reflete quase que simetricamente a realidade física na qual estamos inseridos. Há, pois, como no espaço da vida cotidiana, diretrizes de massificação e de alienação do sujeito. Nesses espaços existenciais também existem diretrizes que fomentam o esclarecimento e a liberdade para as subjetividades transformarem suas estruturalidades e funcionalidades que naturalmente deslocam-se de modo rizomático nos variados devires em que sãos feitas.


Um olhar de flânerie, seguido por uma postura analítica e crítica, permite-nos ver o complexo e intenso mundo criado pelo dispositivo do orkut, e redes afins. Com essa leitura caridosa, no sentido filosófico do termo, não demonizamos essa poderosa ferramenta de agenciamentos de enunciação subjetivo-social. Ao contrário, dimensionamos nossas heterogêneas cartografias subjetivas em um campo existencial cibernético capaz de funcionar como locus e meio para a efetivação de produtividade, de criatividade e de deslocamentos necessários que tornam o sujeito agente competente e consciente de sua própria ação.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:


BENJAMIN, Walter. Ouvres III. Paris: Gallimard, 2000.

DELEUZE, Gilles. Mil Platôs. Vol. 1. São Paulo: Ed. 34, 1995.

_______. Mil Platôs. Vol. 3. Trad. deAurélio Guerra Netto et al. São Paulo: Ed. 34, 1996.

_______. Mil Platôs. Vol. 4. Trad. deSuely rolnik. São Paulo: Ed. 34, 1997.

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. L'Anti-Oedipe: capitalisme et schizophrénie. Paris: Minuit, 2005.

GUATTARI, Félix. Da produção de Subjetividade. In: PARENTE, André (org). Imagem Máquina: a era das tecnologias do virtual. São Paulo: Ed. 34, 1993.

JAKOBSON, Roman. Linguagem e comunicação. São Paulo: Cultix, 1971.

LACAN, Jacques. Écrits. Paris: Seuil, 2001.

PARENTE, André (org). Imagem Máquina: a era das tecnologias do virtual. São Paulo: Ed. 34, 1993.

Wikipedia. Orkut. < http://pt.wikipedia.org/wiki/Orkut >. Acesso em 25 mai. 2009.


sábado, 19 de setembro de 2009

Sabedoria ancestral expressa em latim


1. A adoção imita a natureza. — Adoptio naturam imitatur.
2. Nada vem do nada — De nihilo nihil. (Lucrécio)
3. É difícil esquecer de repente um longo amor. — Difficile est longum subito deponere amorem.
4. Quando o pobre dá presente ao rico, parece armar-lhe redes. — Donat cum egenus diviti retia videtur tendere (Catulo).
5. Doce e honroso é morrer pela pátria. — Dulce et decorum est pro patria mori. (Horácio)
6. A afinidade não gera afinidade. — Affinitas affinitatem non generat.
7. A águia não caça moscas. — Aquila non captat muscas.
8. A arte está em esconder a arte. — Ars est celare artem.
9. A barba não faz o filósofo. — Barba non facit philosophum.
10. A boa árvore dá bons frutos. — Arbor bona fructus bonos facit.
11. A boa vontade supre a obra. — Aequiparat factum nobile velle bonum.
12. A boca fala do que está cheio o coração. — Ex abundanctia enim cordis os loquitur.
13. A boda ou a batizado não vás sem ser convidado. — Alterius festum solum invitatus adibis.
14. A boi velho não busques abrigo. — Aetatem habet, ipse sibi consulte expertus.
15. A caridade começa por casa. — A caridade começa por casa.
16. A cavalo dado não se olha o dente. — Equi donati dentes non inspiciuntur.
17. A César o que é de César. — Quae sunt Caesaris, Caesari.
18. A desgraça de uns é o bem de outros. — Lucrum unibus est alterius damnum.
19. A desgraça do pobre é querer imitar o rico. — Inops, potentem dum vult imitari, perit.
20. A desgraça vem ser chamada. — Mala ultro adsunt.
21. A Deus nada é impossível. — Nihil est quod Deus efficere non possit.
22. A exceção confirma a regra. — Exceptio regulam probat.
23. A experiência vale mais que a ciência. — Experientia praestantior arte.
24. A fama tem asas. — Fama volat.
25. A fortuna é como o vidro: — tanto brilha, como quebra. — Fortuna vitrea est: tum cum splendet, frangitur.
26. A hora é incerta, mas a morte é certa. — Morte nihil certius est, nihil vero incerta quam ejus hora.
27. A intenção é que faz a ação. — Voluntas pro facto reputatur.
28. A letra, com sangue, entra. — Litterae non entrant sine sanguine.
29. A maior pressa é o maior vagar. — Qui nimium properat serius absolvit.
30. A maior vingança é o desprezo. — Injuriarum remedium est oblivio.
31. A morte não poupa ninguém. — Mors omni aetate communis est.
32. A morte tudo nivela. — Omnia cinis aequat.
33. A necessidade é mestra. — Fames magistra.
34. A necessidade não tem lei. — Necessitas caret lege.
35. A ocasião faz o ladrão. — Occasio facit furem.
36. A palavras loucas, orelhas moucas. — Dementis convitia nihil facias.
37. A pergunta apressada, resposta demorada. — Quaerenti propere danda est responsio lenta.
38. A pressa é inimiga da perfeição. — Festinare docet.
39. A quem quer, nada é difícil. — Volenti nihil difficile.
40. A quem trabalha, Deus ajuda. — Industriam adjuvat Deus.
41. A sorte da guerra é incerta. — Anceps fortuna belli.
42. A sorte está lançada. — Alea jacta est.
43. A verdade dispensa enfeites. — Veritatis simplex oratio.
44. A verdade sai da boca das crianças. — Ex ore parvulorum veritas.
45. A vista do dono engorda o cavalo. — Oculus domini saginat equum.
46. A vitória ama a cautela. — Amat victoria curam.
47. Abuso não é uso, mas corruptela. — Abusus non est usus, sed corruptela.
48. Acaba-se o haver, fica o saber. — Sapientia longe preestat divitiis.
49. Aceita o que é teu e dá o alheio a seu dono. — Accipe quod tuum, alterique da suum.
50. Advogados nascem, juízes fazem-se. — Advocaci nascuntur, judices fiunt.
51. Agir, não falar. — Agere non loqui.
52. Água e pão, comida de cão. — Vilis aqua et panis, potus et esca canis.
53. Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura. —Gutta cavat lapidem, non vi sed saepe cadendo.
54. Alegação sem prova é como sino sem badalo. — Allegatio sine probatione veluti campana sine pistillo est.
55. Amigo certo conhece-se na hora incerta. — Amicus certus in re incerta cernitur.
56. Amigo certo, nas horas incertas. — Amicum certum in re incerta cerni.
57. Amigo de meu compadre, porém mais da verdade. — Amicus Plato, sed magis amica veritas.
58. Amigo de todos e de nenhum, tudo é um. — Qui servit communi servit nulli.
59. Amigo velho é parente. — Amicitia vera similis est consanguinitati proximiori.
60. Amigo, a que vieste? — Amici, ad qui venisti?
61. Amigos, amigos! negócios à parte! — Usque ad aras amicus.
62. Amigos, nem muitos, nem nenhum. — Amandi, nec multi, nec nulli.
63. Amor com amor se paga. — Amor amore compensatur.
64. Amor com amor se paga. — Amor amore compensatur.
65. Amor de asno entra a coices e dentadas. — Dentes atque pedes asinini exordia amoris.
66. Amor e senhoria não quer companhia. — Amor et potestas impatiens consortis.
67. Amor faz muito, mas dinheiro faz tudo. — Plurima praestat amor, sed sacra pecunia cuncta.
68. Amor primeiro não tem companheiro. — Primus amor potior.
69. Andando de dois, se encurta o caminho. — Comes facundus in via pro vehiculo est.
70. Anel de ouro não é para focinho de porco. — Anulus aureus in nare suilla.
71. Antes burro que me leve que cavalo que me derrube. — Malo tutus humi repere quam ruere.
72. Antes calar que com doidos altercar. — Dementis convitia nihil facias.
73. Antes da morte, não louves a ninguém. — Ante mortem ne laudes hominem quemquam.
74. Antes de entrar, pensar na saída. — Res ab exitu spectanda et dirigenda est.
75. Antes de mais que de menos. — Melius est abundare quam deficere.
76. Antes de matar a onça, não se faz negócio com o couro. — Priusquam mactaveris, excorias.
77. Antes invejado que lastimado. — Praestat invidiosum esse quam miserabilem.
78. Antes pobre sossegado que rico atrapalhado. — Liber inops servo divite felicior.
79. Antes que conheças, não louves nem ofendas. — Antequam noveris, a laudando et vituperando abstine.
80. Antes só do que mal acompanhado. — Fecit iter longum, comitem qui liquit ineptum.
81. Antes sofrer injúria, que praticá-la. — Accipere, quam facere, praestat injuria.
82. Antes sofrer o mal que fazê-lo. — Accipere quam facere praetat injuriam.
83. Antes tarde do que nunca. — Utilius tarde quam nunquam.
84. Antes torcer que quebrar. — Flectere commodius validas quam frangere vires.
85. Ao avarento falta o que não tem e falta o que tem. — Tam desunt avido sua quam quod non habet.
86. Ao homem ousado, afortuna estende a mão. — Audaces fortuna juvat, timidosque repellit.
87. Ao médico, ao advogado e ao abade, falar a verdade. — Abbati, medico, patronoque intima pande.
88. Ao padre, médico e advogado, falar a verdade. — Abbati, medico, potronoque intima pande.
89. Ao que está feito, remédio; ao por fazer, conselho. — Consilium faciendo, facto adhibeto medelam.
90. Ao vivo tudo falta, e ao morto tudo sobra. — Morienti cuncta supersunt.
91. Aprende chorando e rirás ganhando. — Litterarum radices amarae, fructus dulces.
92. Aquele a quem se dá, o escreve sobre a areia; aquele a quem se tira, o escreve sobre o bronze. — In vento scribit laedens; in marmore laesus.
93. Aqui é que está o busílis. — Hoc opus, hic labor est.
94. Arca aberta, o justo peca. — Oblata occasione, vel justus perit.
95. Arrenego de grilhões, ainda que sejam de ouro. — Non bene pro toto libertas venditur auro.
96. Arrenego do amigo que come o meu comigo e o seu consigo. — Absit qui mea manducat mecum et sua secum.
97. Arrufos de namorados são amores renovados. — Amantium ira redintegratio amoris est.
98. As aparências enganam. — Fallitur visio.
99. As boas palavras custam pouco e valem muito. — Verba mollia et efficacia.
100. Asno que tem fome, cardos come. — Jejunus stomachus





domingo, 17 de maio de 2009




PRÓSPERO — Pareceis, caro filho, um tanto inquieto, como quem sente medo. Criai ânimo, senhor; nossos festejos terminaram. Como vos preveni, eram espíritos todos esses atores; dissiparam-se no ar, sim, no ar impalpável. E tal como o grosseiro substrato desta vista, as torres que se elevam para as nuvens, os palácios altivos, as igrejas majestosas, o próprio globo imenso, com tudo o que contém, hão de sumir-se, como se deu com essa visão tênue, sem deixarem vestígio. Somos feitos da matéria dos sonhos; nossa vida pequenina é cercada pelo sono. Reconheço, senhor, que estou irritado. Suportai-me, vos peço; é da fraqueza. Enturva-se-me o cérebro já velho. Não vos amofineis com minha doença. Caso vos for do agrado, entrai na cela, para aí repousardes. Enquanto isso, darei algumas voltas, porque possa tornar-me calmo.

[uma das básicas falas de Próspero, protagonista da peça A última tempestade, de William Sheakespeare]

Do peso e da leveza: sobre a velhice






Acrescentar liberdade de ação à desigualdade fundamental da condição social, impondo o dever da liberdade sem os recursos que permitem uma escolha verdadeiramente livre é, numa sociedade altamente hierarquizada como a brasileira, uma receita para uma vida sem dignidade, repleta de humilhação e autodepreciação (Guita Grin Debert. O Idoso na Mídia. Revista Com Ciência).

Exploraremos, nesse artigo, alguns aspectos sobre a leveza e o peso da existência, qualidades presentes de modo simultâneo, em uma fase de desenvolvimento da vida humana, que é a velhice. Com o número de pessoas idosas aumentando consideravelmente, tanto nos países avançados como naqueles em desenvolvimento, políticas governamentais e não-governamentais são elaboradas e implementadas no sentido de se encontrar um equilíbrio intergeracional para o bem-estar coletivo.

Nesse meio, o que pensamos sobre a velhice, aparados pelos discursos do senso comum, da Gerontologia e da Geriatria, caminha por dois pólos de representação: o pólo da pessoa idosa como sujeito a ser amparado em suas deficiências psicofísicas ou, então, o pólo da pessoa idosa que é capaz de, individualmente, resolver as suas necessidades cotidianas.

Para iniciar nossa abordagem do tema velhice, surge-nos à mente uma das histórias da Mitologia Grega, que nos conta os feitos do herói Perseu. Herói oportuno, pois nos dá um exemplo de como jovem pode relacionar-se com a velhice para conseguir atingir seus feitos gloriosos, com a finalidade de ser alçado a um lugar de honra no mundo olímpico. Sabemos que o jovem Perseu é respeitado por seus pares por ter conseguido decepar a cabeça de uma das Górgonas, a poderosa Medusa, sem ser transformado em estátua e neutralizando, depois dessa conquista, seus potenciais inimigos com essa força prodigiosa, pois todos que olhassem diretamente para os olhos de Medusa, mesmo depois do monstro morto, eram imediatamente petrificados.

Perseu, para conseguir esse feito inaudito, deveria chegar ao lugar habitado pelas Górgonas, passando pelas Graias, protetoras. Essas entidades, as Graias, são divindades que já nasceram velhas e guardam os fatos passados, presentes e futuros, tanto os dos homens quanto os dos deuses. Apesar de sua força primitiva, as Graias são ludibriadas por Perseu e obrigadas a darem o roteiro para o lugar pretendido; contam ao rapaz o percurso para se atingir a região de Medusa. Com outros subterfúgios, o jovem chega ao lugar e ardilosamente consegue seu troféu.

Interessa-nos de perto, mais do que os feitos do mundo antigo, como a velhice já é representada no mundo helênico e como seus ecos ainda batem forte aos nossos ouvidos contemporâneos. As Graias, são três senhoras, numa mistura de características humanas e animais, que têm a particularidade de já terem nascido velhas e ficarem disputando entre si um único olho e um único dente. Daí, seu caráter de vigilantes, já que podem ver, quando uma delas fica com a posse do olho, e falar, quando um delas fica com a posse do dente, com grande clarividência dos segredos do mundo subterrâneo e do mundo da superfície, como nos fala Jonh Bart (1986).

O mito nos oferece uma peculiar relação entre a juventude, em fase de afirmação, e a velhice, já estabelecida em sua autoridade de validar caminhos e práticas de ação tidos como produtivos para o bem estar da coletividade. Poderíamos falar que ele aborda, dentre outras riquezas sócio-culturais, os constantes confrontos entre as faixas etárias, principalmente no que diz respeito à juventude e ao mundo adulto que se colocam frente a frente com a dimensão da velhice.

Leveza e peso são evocados pelo mito. Leveza da juventude em sua confiança cega nas suas próprias forças e em seus arroubos perante a irremediável linha do progresso; peso na falta de meios para se atingir tal progresso. Leveza da velhice por deter os conhecimentos do saber-agir para enfrentar e solucionar as situações de perigo; peso da velhice na quase necessidade de ser enganada para que o jovem atinja seu lugar no meio dos demais adultos.

Como Perseu sai-se desse confronto? Vitorioso, casa-se com Andrômeda, tem seus filhos e governa seu reino. No entanto, as Graias não o perdoam; ao contrário, parecem cobrar o preço de ajudarem, pelo estratagema do engodo, o jovem herói a encontrar a fama. Perseu, com o passar do tempo, vai transformando-se no homem de vida sedentária, barrigudo, sem aventuras instigantes e sua vida insossa caminha-se para a velhice. Os deuses, porém, como que se apiedando de tal destino, transformam-no, e aos entes mais próximos, em estrelas. Perseu é eternizado, petrificado pelo processo de museificação da memória helênica. Leveza da vida, pois, transformada em peso de um saber-viver memorialístico que, talvez, esperaria um novo jovem herói para expropriar seu arquivo repleto de tecnologia para se enfrentar perigos de várias ordens.

Do mito passamos às nossas cotidianas relações sociais, no que elas podem nos ensinar a respeito das relações entre o mundo do homem, em fase de produção convencional, e o homem na idade da velhice. Uma dialética entre a leveza e o peso também aí pode ser seguida, sendo que por muitas vezes, o espírito do peso parece delinear os resultados de tal encontro. O mundo do adulto, em fase de produção, não sabe o que fazer com a pessoa idosa ainda viva. Mesmo que esse mundo conheça e use os valores positivos de seus velhos, esses mesmos velhos, antes de tornarem-se estrelas da constelação de nossas mitologias familiares e sociais, são configurados, predominantemente, pela representação de subjetividades impregnadas por uma concentrada e repugnante carga de peso para si mesmos e para seus contemporâneos.

Nessa fase de excesso de peso que atinge um estrato populacional específico, mas que reflete a qualidade negativa na coletividade, vemos os poderes institucionalizados, governamentais e não-governamentais, internacionais, nacionais, estaduais e municipais, se organizarem para colocar o tema em pauta.

A ONU – Organização das Nações Unidas – na II Assembléia Mundial do Envelhecimento, de 8 a 12 de abril de 2002, em Madri, continuou suas tentativas de unificação global de políticas de ação social para assegurar condições de melhoria de vida para esse contingente populacional, o da pessoa idosa. Nesse encontro internacional, foi formulado o documento intitulado Plano de Ação Internacional para o Envelhecimento, disponibilizado no Brasil pelo Conselho Nacional dos Direitos do Idoso e pela Secretaria Especial dos Diretos Humanos da Presidência da República.

Para esse documento, o segmento populacional da velhice está tendo, e ainda terá, um aumento sem precedentes na história. Pelas palavras do Secretário Geral da ONU, Sr. Kofi Annan (2003: p. 13), hoje temos razões fundamentais e imperiosas para voltar a refletir sobre a questão. O mundo está passando por uma transformação demográfica sem precedentes. Até 2050, o número de idosos aumentará em aproximadamente de 600 milhões a quase 2 bilhões. No decorrer dos próximos 50 anos haverá no mundo, pela primeira vez na história, mais pessoas acima de 60 anos que menores de 15.

Universaliza-se, pois, a percepção de novas relações sociais frente ao novo fenômeno e, conseqüentemente, novas necessidades vão tomando a pauta das instituições civis e governamentais, responsáveis pelo bem-estar social. E percebemos que uma das diretrizes, presente no pensamento gerontológico contemporâneo, que baseia a junção dos esforços institucionais, é a de diminuir a incapacidade psicofisiológica do sujeito com mais de sessenta anos.

Tal direção vem substituindo aquela convencional crença de que a pessoa idosa estava condicionada à exclusão do mercado tradicional de trabalho, bem como das demais relações sociais e, conseqüentemente, deveria ser alienada da vida social por algum poder institucional. É o que se convencionou chamar, na jargonística da Gerontologia, de “o idoso como fonte de miséria” que contrapõe ao que hoje se implementa como a política do “idoso como fonte de privilégio”.

O quadro de subvalorização do perfil do idoso, apesar das suas limitações em valorizar as potencialidades da pessoa em condição de exclusão, foi um dos primeiros avanços no terreno das teorizações e práticas a respeito da velhice. Apesar de ainda termos ações sociais nessa linha de compreensão, vemos surgir características de uma segunda disposição da representação da constituição e do papel do idoso na nossa sociedade, a da velhice competente, como já mencionamos.

Essa segunda configuração do papel da velhice pretende apresentar o idoso como pessoa ainda apta a agir com capacidades semelhantes ao do adulto. Dessa forma, os programas sociais pretendem reeducá-la para agir como pessoa independente e auto-suficiente, capaz de ainda fazer parte do mercado de trabalho a sua volta.

Aparentemente, quando vemos o idoso tornar-se responsável por si mesmo, parece-nos um acontecimento positivo, pois pensamos ver o surgimento do equilíbrio intergeracional que acabaria com uma carga de esforços tidos como extra para as diversas instituições. No entanto, sabemos que o exagero das representações gratificantes da velhice acaba por criar tantos problemas quanto a idéia de que tal fase da vida é feita apenas por uma condição miserável, tanto em seu nível mental quanto em seu nível físico.

Saímos de um estereótipo da velhice e caímos em outro estereótipo, sem que a questão seja resolvida ou, em hipótese pessimista, teríamos a situação do idoso mais problemática.

O Plano de Ação Internacional para o Envelhecimento, texto que começamos a explorar atrás, esforça-se por balancear suas ações entre os dois pólos que vimos acima. As ações governamentais e não-governamentais que asseguram um desenvolvimento pleno do ser humano, com ênfase em sua fase de velhice, são inseridas em diretrizes e temas que visam a consecução de objetivos bem definidos. Os temas, firmados entre os países participantes, foram englobados no que se convencionou chamar de orientações prioritárias, em número de três: a primeira diz respeito a pessoas idosas e ao desenvolvimento; a segunda, preocupa-se com a promoção da saúde e bem-estar da velhice; a terceira, fomenta a criação de ambiente propício e favorável ao envelhecimento e à pessoa idosa.

A terceira orientação prioritária, dentre outros tópicos e objetivos, traz o tema que diz respeito às imagens do envelhecimento, que objetiva o maior reconhecimento público da autoridade, sabedoria, produtividade, dentre outras contribuições importantes dos idosos. Acreditamos que, nesse tema, está inserido o espírito de nosso artigo, já que estamos acompanhando possibilidades de se perceber a velhice relacionada com outras faixas etárias.

De modo sumário, como mencionamos de início, demonstramos como a questão do envelhecimento e da velhice vem sendo institucionalizada por um organismo internacional e dirigindo as políticas particulares de cada país. Dessa forma, uma orientação integrada, sobre ações a serem implementadas, espraia-se do nível internacional para os níveis federais, estaduais, municipais e não-governamentais. Se levarmos em conta as diferenças de cada povo, de cada cultura, no trato com a pessoa idosa, temos no nível mundial um consenso em juntar esforços para procurarmos a leveza da vida em uma fase que parece ser completamente dominada pelo peso da falência da vida.

Do sumário das diretrizes prioritárias que a ONU nos apresenta, interessa-nos, mais de perto, a preocupação que a ação internacional denominou por imagens do envelhecimento. Isso significa que “uma imagem positiva do envelhecimento é um aspecto essencial do Plano de Ação Internacional sobre o Envelhecimento, 2002” (ONU, p. 72-73).

A saúde e o gozo pleno das capacidades psicofísicas são, de fato, muito importantes para a pessoa idosa. No entanto, o custo disso (a concentração da assistência pública, o custo com serviços de assistência à saúde, as pensões e outros serviços) funciona como estímulo para que a população, de produtividade convencional, produza e promova uma série de imagens negativas do envelhecimento e da velhice. Assim, as imagens que destacariam o atrativo, a diversidade e a criatividade dos idosos e sua contribuição vital para a sociedade, devem competir com as imagens negativas para despertar a atenção dos demais estratos etários da sociedade.

Nossa sociedade midiática, além de nossa literatura erudita ou popular, fazem-nos engolir, constantemente, imagens distorcidas sobre o processo do envelhecimento e, conseqüentemente, da velhice. Pelos veículos de comunicação, a pessoa idosa só adquire valor positivo quando nos pode auxiliar de modo pragmático, ou seja, de forma pontual e sem compromisso de contrapartida. Auxílio conquistado, a pessoa velha é descartada e encaminhada para situação semelhante àquela de museificação, que abordamos no início desse artigo, quando abordamos a condição final do herói Perseu. Leveza da vida que deveria destruir o peso da morte. Porém, mais uma vez o maniqueísmo mostra-se estéril e não é capaz de nos colocar frente às verdadeiras feridas de nossas fábricas de imagens estereotipadas.

Simone Beauvoir (1990), em seu básico ensaio sobre a velhice, conta-nos uma das histórias de Buda, que pode enriquecer nossas reflexões. É a seguinte: Quando Buda era ainda o príncipe Sidarta, encerrado por seu pai num magnífico palácio, dele escapuliu várias vezes para passear de carruagem nas redondezas, Na primeira saída, encontrou um homem enfermo, desdentado, todo enrugado, encanecido, curvado, apoiado numa bengala, titubeante e trêmulo. Espantou-se, e o cocheiro lhe explicou o que era um velho: “Que tristeza – exclamou o príncipe – que os seres fracos e ignorantes, embriagados pelo orgulho próprio da juventude, não vejam a velhice! Voltemos rápido para casa. De que servem os jogos e as alegrias, se eu sou a morada da futura velhice?”

Ser a morada da velhice é um dos vislumbres que o jovem Buda tem das verdades mais profundas. Nesse quadro não se pode agir como Perseu diante das Graias, num aparente confronto natural entre as várias gerações, no qual a velhice sempre dever ser ludibriada para que o herói receba sua coroa de louros. Enganosa vitória seria essa, já que o peso da petrificação, outrora protegido pelas velhas senhoras, é elemento inerente do rapaz que, com todos os seus ardis, pensa em dele fugir pela ilusória leveza conferida pela posse de poderes que se tornam, assim que usados, falíveis.

O jovem e o adulto, que conhecem a velhice dentro de si mesmos, estariam mais preparados para receber, de modo crítico e produtivo, as imagem negativas do envelhecimento e da velhice que lhes são oferecidas. Assim, o recolhimento à casa, semelhante ao do jovem Buda, serviria para o ajuntamento de esforços que assegurasse um reconhecimento público da autoridade, sabedoria, produtividade e outras contribuições importantes que vêm da velhice.

Nesse sentindo, o de percebermos a velhice como uma característica inerente a nossa constituição, vemos a urgência de seguirmos a orientação prioritária da ONU quanto a este tema: há a necessidade de implementarmos, em nosso meio social, medidas que elaborem e promovam amplamente um marco normativo, onde haja responsabilidade individual e coletiva de reconhecer as contribuições passadas e presentes dos idosos, procurando resistir a mitos e idéias pré-concebidas e, conseqüentemente, tratar os idosos com respeito e gratidão, dignidade e consideração.

Devemos estimular, como espectadores críticos e ativos, os meios de comunicação de massa a promoverem imagens que destaquem a sabedoria, os pontos fortes, as contribuições, o valor e a criatividade de mulheres e de homens idosos, inclusive daqueles idosos com incapacidades.

Que se proliferem as portas abertas, proporcionadas pelas universidades, faculdades e escolas, para o estímulo de educadores que reconheçam e incorporem, em seus cursos, as contribuições feitas por pessoas de todas as idades, inclusive as idosas. Este estímulo funcionará para que o educando perceba e tenha ilustrada, em sua vida sócio-cultural, a diversidade plena da humanidade.

Sem dúvida, a mídia tem forte papel a desempenhar na implementação de novas imagens do envelhecimento e da velhice. É necessário, pois, reconhecer que tais meios de comunicação são precursores da mudança e podem atuar como fatores de orientação na promoção do papel que toca aos idosos nas estratégicas de desenvolvimento, inclusive nas zonas rurais. Além disso, salienta-se a necessidade de novos espaços, que esses meios de comunicação poderiam abrir, para a pessoa idosa apresentar suas atividades e preocupações cotidianas.

Poderíamos publicar compêndios com ações que, efetivamente, equilibrariam a questão do peso e da leveza no âmbito da velhice e do envelhecimento. Porém, acreditamos que o discurso gerontológico, ou outros afins, consegue, hoje, aproximar-se, com aparelhagens refinadas e competentes, do fenômeno em questão. Profissionais, de várias áreas do conhecimento, juntam-se para se especializarem no assunto, e governos e órgãos não-governamentais já encaram, sem tantos maquiavelismos, o encontro entre gerações que outrora, em nossa cultura ocidental, marcavam presença em beligerantes confrontos. Assim, pensamos que se relativiza a distância entre o peso e a leveza, entre o meu ser produtivo e bem localizado socialmente, de hoje, com a velhice que me habita e, brevemente, tomará seu centro. Perseu, talvez, poderá, em um futuro próximo, convidar as Graias para um espontâneo, desinteressado e alegre vôo pelo mundo dos homens.